Perceber a diferença
por Carlos Campos
Ao realizar o ritual habitual de vasculhar memórias, felizmente ainda recentes, das aulas de Metodologia de Futebol do Professor Vítor Frade, encontrei uma crónica de Mourinho para a revista Record DEZ de 15 de Outubro de 2005 onde este procura desmontar uma série de conceitos chave em redor do seu entendimento acerca do Treino. Recordo-me bem de algumas polémicas geradas em torno destas questões, muitas dúvidas e mal-dizer que ainda hoje persistem naqueles que, por maldade ou incapacidade, não aceitam a diferença relativamente a uma forma de operacionalizar o processo de Treino. Depois disto já muita tinta correu, mas esta crónica não perdeu pertinência e este parece-me ser o espaço de eleição para a reavivar. Da minha parte atrevi-me a analisá-la à luz daquilo que acredito, interpreto e julgo saber.
“(...) Desculpem-me os que são crentes, mas para nós não passam de vocabulário desactualizado.
Refiro-me a conceitos como treino físico, preparação física, pastas de preparação física, entre outros. Não critico quem pensa desta forma. Critico quem compara o nosso processo com outros processos. Os processos de treino e competição são todos diferentes. Para nós é uma questão de concepção, mas mais do que isso é uma questão de “operacionalização”.
Começo por dizer o que tenho dito noutras alturas: não tenho preparador físico, pelo que não posso ter pastas de preparação física, pois como líder responsável pelo processo não teria pasta para lhe dar! Tenho sim colaboradores no processo de treino e jogo, com funções muito específicas, de acordo com as necessidades de gestão de uma época longa. Tudo se relaciona com a forma como treinamos. Não temos espaço para o treino físico, isto é, não temos espaço para os tradicionais treinos de resistência, força ou velocidade. É tudo uma questão de comportamentos! (...)”
Logo a abrir, Mourinho tem como primeira preocupação separar aquilo que é manifestamente oposto. Embora os mais distraídos ou menos lúcidos insistam em usar o mesmo rótulo para o treino de Mourinho e para o treino dos demais, isso encerra um erro tanto mais grave quantas mais são as vozes que procuram, pacientemente, explicar que existem diferenças abissais tais como as que permitem a distinção entre a densa Floresta Amazónica e o arenoso Deserto do Saara. Mesmo assim, a maioria continua a cair no erro de passear de camelo na Amazónia, daí a necessidade que Mourinho sentiu em, pela enésima vez, marcar aquilo que distingue a sua metodologia das demais.
Uma dessas marcas é, indubitavelmente, a ausência de “pastas de preparação física”, pois, na periodização do treino, Mourinho direcciona as suas preocupações noutra frequência. Contudo, esse referencial “físico” está de tal modo enraizado no treino desportivo em geral, e no Futebol em particular, que poucos são aqueles que conseguem entender, de uma vez por todas, que é possível haver alguém com sucesso estrondoso tendo como referência para o seu trabalho diário outra dimensão que não a física. E se são poucos os que entendem que é possível trabalhar desta forma, são ainda menos os que conseguem compreender o que está inerente a esta metodologia. E menos ainda aqueles que, depois de cumprirem as condições atrás enunciadas, conseguem operacionalizar o Treino segundo as demandas da Periodização Táctica. Reside aqui a explicação para o facto de Mourinho dizer que, antes de uma questão de operacionalização, é uma questão de concepção, pois a distância para o entendimento e aceitação desta metodologia é ainda de tal ordem gigantesca que não faz sequer sentido colocar a ênfase na operacionalização. Para se lá chegar ainda é preciso interiorizar que existe este conceito, esta metodologia, esta forma de pensar o Treino!
Os “colaboradores do processo de treino e de jogo” que Mourinho fala seguem a lógica de uma metodologia amplamente virada para a melhoria do “jogar” da equipa sendo a referência desse “jogar bem” o modelo de jogo definido e diariamente trabalhado. Isto é bem diferente de ter uma pessoa responsável pela componente física, pois aí a referência é outra e passamos a falar numa forma de periodizar o treino que nada tem a ver com aquilo que o então treinador de Chelsea defende. Não é somente uma questão de vocabulário. Não! É muito mais que isso!
“(...) Exercitamos o nosso modelo de jogo, exercitamos os nossos princípios e subprincípios de jogo, adaptamos os jogadores a ideias comuns a todos, de forma a estabelecer a mesma linguagem comportamental. Trabalhamos exclusivamente as situações de jogo que me interessam, fazemos a sua distribuição semanal de acordo com a nossa lógica de recuperação, treino e competição, progressividade e alternância. Criamos hábitos com vista à manutenção da forma desportiva da equipa, que se traduz por um frequente “jogar bem”. (...)”
O “jogar” torna-se, assim, o aspecto central de todo e qualquer processo metodológico e é em torno dele que tudo se desenvolve. A compartimentação de treino técnico, treino táctico e treino físico é algo que Mourinho não faz. O treino é sempre totalmente integral (o que é diferente de integrado!). Os ditos factores são integrados na medida em que todos os exercícios têm um objectivo táctico que os estrutura. A manipulação das condicionantes tempo, espaço, regras, etc, exercem também uma influência fundamental. Os fins estão sempre nos jogos! A predominância táctica é sempre trabalhada no contexto próximo da realidade e assim aparece o físico e o técnico mais específicos. A especificidade está presente quando, sendo capazes de caracterizar os princípios de jogo, o sistema que se vai privilegiar e as características dos jogadores que temos, actuamos sobre cada uma das nossas preocupações.
O modelo de jogo definido é constituído por princípios, subprincípios e sub-subprincípios de jogo e é sobre a melhoria destes comportamentos que se direcciona todo o processo de treino e aqui a melhoria diz respeito a tudo que os envolve sendo que, no final, o que se pretende é que todos os compreendam e interpretem eficazmente, traduzindo-se isso na “mesma linguagem comportamental” de que Mourinho fala. Esta lógica adquire uma complexidade tal que seria impensável estar a misturar isto com referenciais físicos.
A lógica de recuperação, treino e competição assenta na progressividade e alternância horizontal. Aprofundando ligeiramente estes dois conceitos podemos dizer que a ideia de progressão tem a ver com o modo como se passa de uns dias para os outros ser diverso, sendo que isso tem consequências evidentes. Isto resulta da circunstância de nos diferentes dias se trabalharem diferentes coisas, ou seja, há uma alternância, mas uma alternância horizontal: em cada dia trabalham-se coisas diferentes do “jogar” que se pretende.
O outro princípio que rege a Periodização Táctica é o princípio das propensões e consiste, sucintamente, na contextualização de determinadas coisas para que aquilo que se quer que aconteça, aconteça mais vezes. Isto é, concebe-se determinado contexto com o intuito de que ele conduza a determinado comportamento desejado.
O “jogar bem” de que nos fala Mourinho não é um “Jogar Bem” universal mas sim referenciado àquilo que se inscreve no seu modelo de jogo. Cada treinador almeja que a sua equipa jogue de determinada forma, contudo o caminho que cada um segue em busca do cumprimento dos comportamentos concordantes com o que o treinador pretende é que diverge substancialmente. Mourinho faz questão de assumir e explicar a metodologia que segue de modo a que as confusões e sobreposições indevidas desapareçam definitivamente.
“(...) Sei que é uma questão difícil de desmontar sob o ponto de vista cultural. Além do mais existem pessoas, por direito próprio, a pensar de forma radicalmente oposta. Mesmo para os que dizem treinar com situações de jogos reduzidos, porque mesmo esses vivem agarrados e obcecados com tempos de exercitação, de repouso, repetições, etc. Todas estas questões são para nós “acessórias”. O que é crucial é mesmo o conteúdo de princípios de jogo inerentes a cada exercício e a relação interactiva que estabelecemos com o mesmo. O que é mesmo fundamental é entender que aquilo que procuramos é a qualidade de trabalho e não a quantidade, treinar para jogar melhor.”
Culturalmente, e conforme já foi acima explicado, o referencial físico no treino é tido como universal e inquestionável, pois quase todos os trabalhos científicos publicados versam sobre esta temática. De facto, conforme diz Mourinho, existem “pessoas a pensar de forma radicalmente oposta”, mas importa salientar que a estrutura científica convida a trabalhos facilmente quantificáveis, de preferência com valores numéricos e, aí, entra o “publish or perish”, a pressão da publicação “obrigatória”. Tudo puxa para o mesmo lado e mesmo com o sucesso que Mourinho tem conseguido, poucos são os que realmente conseguem ir ao cerne da base que o sustenta, pois vivemos rodeados por conceitos bloqueadores de tal compreensão.
Por fim, Mourinho faz mais uma vez questão de deixar bem vincado que não tem nada contra as outras metodologias, sendo sua única intenção não permitir que essas se confundam com a “sua”. Neste contexto, surge a alusão ao treino integrado que, sistematicamente, surge como sendo aquilo que Mourinho faz. Os menos alertados para as questões desta metodologia julgam que arranjar um contexto jogado e, a partir daí, prolongá-lo mais ou menos tempo, intervalá-lo, promovendo alterações no espaço e no tempo visando solicitar mais ou menos este ou aquele sistema energético estão a operacionalizar a Periodização Táctica. Nada mais errado! Isto conduz-nos à ideia da preparação física com bola o que nos remete para o Treino Integrado onde a principal referência continua a ser o físico.
Quem efectivamente operacionaliza o treino segundo os pressupostos da Periodização Táctica tem como grande preocupação a operacionalização de uma ideia de jogo, ou seja, aquilo que mais marcadamente distingue a Periodização Táctica das demais é o facto de ter em conta o modelo de jogo o que, em termos de complexidade, ultrapassa largamente o ter em conta somente a modalidade. O entendimento de que, em competição, a organização de jogo é o que marca verdadeiramente a diferença. Daí que seja a dimensão táctica (não uma Táctica abstracta, mas os princípios de jogo) a coordenar todo o processo de treino semanal.
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segunda-feira, 8 de junho de 2009
sexta-feira, 29 de maio de 2009
OPINIÃO
“Um Reino Mágico de Fantasia”
SER(á) no treino?!
por Mara Vieira
Era uma vez um “reino mágico de fantasia” onde tudo acontecia: correr, saltar, trepar, cair, gritar, rebolar, sorrir… Nesse reino onde tudo era possível havia vários tempos e espaços onde meninos e meninas agiam espontaneamente num imenso espectáculo de imagens e sensações. Era o reino do faz de conta, no qual a bola era o objecto mais amado com o poder de encantar e hipnotizar. Assim, sem se saber como nem porquê eis que todos se preparavam, dia após dia, para mais uma celebração: “Ir jogar à bola”. As leis desta celebração eram a do “contágio” em torno do objecto amado e a da “atracção” pelo qual todos se reuniam em comunhão. Também, comungavam da mesma vontade: viver e criar momentos de fantasia. O(s) celebrante(s) era(m) eleito(s), naturalmente, pelo poder do que evocavam: fintas, dribles, simulações... Verdadeiras “fórmulas mágicas”! Emergia, assim, uma simpatia pelas formas imitativas e miméticas que convertiam o celebrante no próprio poder que ele conjurava.
Era o maravilhoso reino da infância onde tudo era mágico! Onde, inconscientemente, se viviam as primeiras experiências, talvez as mais antigas do encontro do Homem com a fantasia criativa da sua cultura. Partindo destas recordações e vivências, mas, fundamentalmente, pelo trabalho desenvolvido nos últimos anos com jovens jogadores, arrisco dizer que é urgente reequacionar a concepção e intervenção no treino de crianças/jogadores sob pena de “matar” em vez de fazer “desabrochar”.
Para isso, o treinador não deve ser um técnico armado de conceitos, tantas vezes abstractos (como, por exemplo, “jogar em bloco”, “jogar nas e entre linhas”, “manter o equilíbrio da equipa”,...), mas um contador de histórias que contempla e respeita o “reino mágico de fantasia” fazendo do processo de treino e do jogo uma história interminável, na qual cada criança/jogador parte das suas potencialidades e da sua singularidade rumo à transcendência.
A história que se conta, também ela singular, é o nosso jogar! E é a que quisermos!... “Era uma vez uma equipa que tinha um castelo onde ninguém podia entrar. Nesse castelo havia uma princesa (baliza), que tínhamos que salvar dos maus (adversários), mas também havia guardas e dragões. Os guardas protegiam as portas e janelas e os dragões estavam no meio do castelo para expulsar os que se atrevessem a entrar…”. E as crianças, pelo menos as mais novas, entendem bem a linguagem dos símbolos dos contos. São elas que inventam no seu dia-a-dia o jogo do “faz de conta” e tantos outros que as divertem e distraem em tempos vividos entre a imaginação e a realidade. Assim, ainda que a criança necessite de contrapontos para situar a sua própria vivência e o seu equilíbrio talvez não se deva “explicar” o sentido dos “contos”. As imagens e as acções são “as palavras explicativas”.
Príncipes, fadas, duendes, castelos, casas, florestas enormes…”ronaldos”, “messis”, “robinhos”, “zidanes”… guardar portas e janelas…. São imagens e acções simbólicas que oferecem a possibilidade da(s) criança(s) sair(em) vitoriosa(s) do “conto” - o nosso jogar - desde que a linguagem toque directamente no inconsciente, ajudando-a(s) a colocar(em) ordem no seu mundo interno. Ao ouvir um conto ocorre, ou não, a identificação. Se ele for condizente com a situação interna, a identificação é imediata e dá forma para enfrentar as dificuldades. Paralelamente, enriquecem-se as brincadeiras que dão forma ao(s) desejo(s): SER jogador de futebol!
A imaginação da criança constrói-se com símbolos extraídos da realidade, que reforçam as suas estruturas e alargam os seus horizontes, desde que num ambiente rico de impulsos e de estímulos. Como refere Jung, “Quando crianças, vivemos num mundo mágico e mitológico porque para além dos instintos e impulsos, somos arrebatados pela imaginação”. Penso que é a imaginação que dá as crianças aquele brilho nos olhos, um tom rosado nas bochechas, os sorrisos e os comportamentos espontâneos e inesperados. E é nesse momento que elas fazem qualquer pedrinha virar uma bola encantada brincando com “o conto” em qualquer espaço: nos jardins, na rua, em casa…
Neste sentido, promover a brincadeira no treinar é fundamental, não pela simples recordação de impressões vividas, mas pela reelaboração criativa do nosso jogar. Um processo através do qual a criança combina entre si os dados da experiência para construir uma nova realidade, que responde às suas curiosidades e necessidades. Todavia, “é preciso que disponha de tempo livre para inovar e tomar iniciativas sem precisar, a toda a hora, da autorização de um mestre para lhe indicar um bom caminho”, diz-nos Étienne Guillé. Uma parte difícil de assumir pelo treinador, uma vez que tem que estar preparado para aceitar formas de espírito muito diferentes da sua. Portanto, há que deixar de papaguear expressões como: “vai, vai”, “depressa, depressa”, “joga atrás, agora à frente”, “chuta que não tens ninguém”, “finta”, “joga na raça”, “queima terreno”. Como já aqui alertou Vítor Frade, “só faz sentido existir o treinador se este for interventivo, mas interventivo no sentido de catalisador da apreensão de tudo aquilo que é conveniente e importante para o crescimento do processo”.
SER(á) no treino?!
por Mara Vieira
Era uma vez um “reino mágico de fantasia” onde tudo acontecia: correr, saltar, trepar, cair, gritar, rebolar, sorrir… Nesse reino onde tudo era possível havia vários tempos e espaços onde meninos e meninas agiam espontaneamente num imenso espectáculo de imagens e sensações. Era o reino do faz de conta, no qual a bola era o objecto mais amado com o poder de encantar e hipnotizar. Assim, sem se saber como nem porquê eis que todos se preparavam, dia após dia, para mais uma celebração: “Ir jogar à bola”. As leis desta celebração eram a do “contágio” em torno do objecto amado e a da “atracção” pelo qual todos se reuniam em comunhão. Também, comungavam da mesma vontade: viver e criar momentos de fantasia. O(s) celebrante(s) era(m) eleito(s), naturalmente, pelo poder do que evocavam: fintas, dribles, simulações... Verdadeiras “fórmulas mágicas”! Emergia, assim, uma simpatia pelas formas imitativas e miméticas que convertiam o celebrante no próprio poder que ele conjurava.
Era o maravilhoso reino da infância onde tudo era mágico! Onde, inconscientemente, se viviam as primeiras experiências, talvez as mais antigas do encontro do Homem com a fantasia criativa da sua cultura. Partindo destas recordações e vivências, mas, fundamentalmente, pelo trabalho desenvolvido nos últimos anos com jovens jogadores, arrisco dizer que é urgente reequacionar a concepção e intervenção no treino de crianças/jogadores sob pena de “matar” em vez de fazer “desabrochar”.
Para isso, o treinador não deve ser um técnico armado de conceitos, tantas vezes abstractos (como, por exemplo, “jogar em bloco”, “jogar nas e entre linhas”, “manter o equilíbrio da equipa”,...), mas um contador de histórias que contempla e respeita o “reino mágico de fantasia” fazendo do processo de treino e do jogo uma história interminável, na qual cada criança/jogador parte das suas potencialidades e da sua singularidade rumo à transcendência.
A história que se conta, também ela singular, é o nosso jogar! E é a que quisermos!... “Era uma vez uma equipa que tinha um castelo onde ninguém podia entrar. Nesse castelo havia uma princesa (baliza), que tínhamos que salvar dos maus (adversários), mas também havia guardas e dragões. Os guardas protegiam as portas e janelas e os dragões estavam no meio do castelo para expulsar os que se atrevessem a entrar…”. E as crianças, pelo menos as mais novas, entendem bem a linguagem dos símbolos dos contos. São elas que inventam no seu dia-a-dia o jogo do “faz de conta” e tantos outros que as divertem e distraem em tempos vividos entre a imaginação e a realidade. Assim, ainda que a criança necessite de contrapontos para situar a sua própria vivência e o seu equilíbrio talvez não se deva “explicar” o sentido dos “contos”. As imagens e as acções são “as palavras explicativas”.
Príncipes, fadas, duendes, castelos, casas, florestas enormes…”ronaldos”, “messis”, “robinhos”, “zidanes”… guardar portas e janelas…. São imagens e acções simbólicas que oferecem a possibilidade da(s) criança(s) sair(em) vitoriosa(s) do “conto” - o nosso jogar - desde que a linguagem toque directamente no inconsciente, ajudando-a(s) a colocar(em) ordem no seu mundo interno. Ao ouvir um conto ocorre, ou não, a identificação. Se ele for condizente com a situação interna, a identificação é imediata e dá forma para enfrentar as dificuldades. Paralelamente, enriquecem-se as brincadeiras que dão forma ao(s) desejo(s): SER jogador de futebol!
A imaginação da criança constrói-se com símbolos extraídos da realidade, que reforçam as suas estruturas e alargam os seus horizontes, desde que num ambiente rico de impulsos e de estímulos. Como refere Jung, “Quando crianças, vivemos num mundo mágico e mitológico porque para além dos instintos e impulsos, somos arrebatados pela imaginação”. Penso que é a imaginação que dá as crianças aquele brilho nos olhos, um tom rosado nas bochechas, os sorrisos e os comportamentos espontâneos e inesperados. E é nesse momento que elas fazem qualquer pedrinha virar uma bola encantada brincando com “o conto” em qualquer espaço: nos jardins, na rua, em casa…
Neste sentido, promover a brincadeira no treinar é fundamental, não pela simples recordação de impressões vividas, mas pela reelaboração criativa do nosso jogar. Um processo através do qual a criança combina entre si os dados da experiência para construir uma nova realidade, que responde às suas curiosidades e necessidades. Todavia, “é preciso que disponha de tempo livre para inovar e tomar iniciativas sem precisar, a toda a hora, da autorização de um mestre para lhe indicar um bom caminho”, diz-nos Étienne Guillé. Uma parte difícil de assumir pelo treinador, uma vez que tem que estar preparado para aceitar formas de espírito muito diferentes da sua. Portanto, há que deixar de papaguear expressões como: “vai, vai”, “depressa, depressa”, “joga atrás, agora à frente”, “chuta que não tens ninguém”, “finta”, “joga na raça”, “queima terreno”. Como já aqui alertou Vítor Frade, “só faz sentido existir o treinador se este for interventivo, mas interventivo no sentido de catalisador da apreensão de tudo aquilo que é conveniente e importante para o crescimento do processo”.
terça-feira, 19 de maio de 2009
OPINIÃO
A lição teórica de Guardiola
por Nuno Amado
O futebol do Barcelona 2008/2009 não deixou ninguém indiferente. Enquanto uns ficaram absolutamente rendidos, outros reagiram de forma mais reservada, considerando que numa competição mais exigente do ponto de vista atlético, como é a Liga Inglesa, por exemplo, esta filosofia teria pouco sucesso. Sem nunca se ousar colocar em questão a qualidade de jogo da equipa catalã, surgiu a velha dicotomia beleza/utilidade e muitos foram os que fizeram a defesa da tese de um Barcelona demasiado “macio”, menos pragmático do que o desejado e servido por um conjunto de jogadores que carecia de músculo. Dizia-se que, em encontros contra equipas atleticamente superiores e assaz competentes do ponto de vista táctico, este Barcelona não se conseguiria impor e que, apesar de praticar o mais belo futebol da Europa, esta não era a forma mais eficaz de se ter êxito.
Em primeiro lugar, há que dizer que num jogo de futebol, como em qualquer outro jogo, o belo é sinónimo de bom. Isto porque em qualquer coisa com um objectivo tão claro, como é o caso do futebol, é impossível aceitar que algo que não possa produzir consequências práticas possa ser belo. Depois, o erro crasso é acreditar que falta músculo a este Barcelona. É evidente que, em termos atléticos, esta equipa não é tão capaz como as grandes equipas europeias, mas o erro está em presumir que uma equipa de sucesso, no futebol actual, necessita impreterivelmente dos melhores atletas, no sentido em que estou a utilizar o termo. A musculatura desta equipa existe, ao contrário do que se pensa, embora seja de outra ordem.
É verdade que este Barcelona é tudo isto com que o caracterizam. Mas nenhuma dessas características tem necessariamente de ser um defeito. E esta é a grande lição de Guardiola. Numa altura em que, muitos pensam, se parece caminhar para um desporto cada vez mais musculado, no qual a força física e as capacidades atléticas são decisivas, este Barcelona vem deitar por terra essa ideia. O bom futebol, o melhor futebol, é aquele que é jogado com a cabeça, aquele que dá preferência aos atributos intelectuais. O futebol de hoje é um jogo de pouco espaço. Para muitos, tendo em conta essa evidência, os jogadores mais aptos serão, portanto, os mais rápidos, os tecnicamente mais evoluídos e os mais fortes. Se há coisa que este Barcelona vem provar é que isso, em rigor, não tem de ser assim. Os mais aptos são os mais inteligentes, os que decidem mais rapidamente, os que conseguem "fabricar espaços", os que possuem maiores índices de criatividade, etc.
É inegável que esta equipa joga um bom futebol, mas a sua grandeza não se esgota aí. Mais do que uma excelente ilustração de bom futebol, trata-se de uma verdadeira lição teórica sobre o jogo. Por trás desta equipa está um conceito que vem quebrar não só com muitos dos paradigmas actuais como também vem contradizer ideias e conceitos que, ao longo do tempo, foram elevados ao estatuto de dogma. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus laterais para nunca jogar no meio, pois é mais arriscado do que jogar em profundidade na linha, este Barcelona postula o contrário. Os laterais devem jogar no meio, porque é no meio que a possibilidade de criação de apoios é maior e porque é regressando ao meio que as possibilidades de escapar ao “pressing” do adversário aumentam. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus jogadores para não saírem a jogar caso o adversário pressione muito alto, pois é perigoso, este Barcelona não o admite, seja em que situação for. Um excelente exemplo desta “teimosia” foi a final da Taça do Rei. O Athletic de Bilbao optou, sobretudo depois de se encontrar a perder, por pressionar altíssimo, aquando dos pontapés de baliza do Barcelona. A ideia era fazer com que os defesas catalães não tivessem espaço para receber a bola e obrigá-los a jogar a contragosto, com saídas com pontapés longos. O Barcelona não fez caso disto e, ainda que a grande maioria dos treinadores desaconselhasse a sua equipa a sair a jogar nessas condições, saiu sempre a jogar. Com o auxílio dos laterais e do médio-defensivo, que baixou para servir de apoio, a equipa trocava assim a bola dentro da própria grande área, utilizando toda a largura do campo para criar linhas de passe, até que esta chegasse a uma das linhas. Nessa altura, um médio ou o extremo baixava para servir de apoio vertical e, recebendo a bola do lateral, entregava-a de imediato no médio-defensivo, ficando concluída a saída de bola. Alternadamente, dependendo da forma como o adversário pressionava, saíam também pelo meio, depois de conseguirem puxar os adversários para uma faixa e fazendo regressar a bola rapidamente aos centrais. O que é certo é que nunca desvirtuaram a sua maneira de jogar, mesmo correndo riscos tão elevados. Enquanto grande parte dos treinadores diz que não quer "rodriguinhos", que a equipa tem de ser objectiva, que um passe para trás só se faz em caso de aperto e que uma ideia de progressão deve estar sempre presente quando uma equipa troca a bola, este Barcelona vem dizer que isto não é bem assim e que nem sempre é para a frente que se joga, que a objectividade, quando excessiva, se transforma em previsibilidade. Este Barcelona, como joga, torna-se difícil de parar porque nunca se sabe por onde vai entrar, porque o seu futebol não se limita a fazer o mais simples, o mais objectivo, sendo, pelo contrário, complexo e imaginativo. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus jogadores que qualquer nesga para chutar à baliza deve ser aproveitada, este Barcelona refuta essa velha máxima e Guardiola já disse mesmo que prefere que os seus jogadores, mesmo dentro da grande área, troquem a bola em vez de chutar à baliza. A ideia é concluir o lance apenas quando as possibilidades de êxito são consideravelmente boas.
Por tudo isto, este Barcelona, mais do que uma equipa que pratica um futebol agradável, mais do que uma rara excepção de sucesso com armas diferentes, mais do que um exemplo de bom futebol, fundamenta-se na destruição de predicados ancestrais. Representa uma autêntica reformulação teórica do jogo. E é algo que, perdurando, pode contribuir para modificar a mentalidade que, nos dias que correm, domina o jogo.
por Nuno Amado
O futebol do Barcelona 2008/2009 não deixou ninguém indiferente. Enquanto uns ficaram absolutamente rendidos, outros reagiram de forma mais reservada, considerando que numa competição mais exigente do ponto de vista atlético, como é a Liga Inglesa, por exemplo, esta filosofia teria pouco sucesso. Sem nunca se ousar colocar em questão a qualidade de jogo da equipa catalã, surgiu a velha dicotomia beleza/utilidade e muitos foram os que fizeram a defesa da tese de um Barcelona demasiado “macio”, menos pragmático do que o desejado e servido por um conjunto de jogadores que carecia de músculo. Dizia-se que, em encontros contra equipas atleticamente superiores e assaz competentes do ponto de vista táctico, este Barcelona não se conseguiria impor e que, apesar de praticar o mais belo futebol da Europa, esta não era a forma mais eficaz de se ter êxito.
Em primeiro lugar, há que dizer que num jogo de futebol, como em qualquer outro jogo, o belo é sinónimo de bom. Isto porque em qualquer coisa com um objectivo tão claro, como é o caso do futebol, é impossível aceitar que algo que não possa produzir consequências práticas possa ser belo. Depois, o erro crasso é acreditar que falta músculo a este Barcelona. É evidente que, em termos atléticos, esta equipa não é tão capaz como as grandes equipas europeias, mas o erro está em presumir que uma equipa de sucesso, no futebol actual, necessita impreterivelmente dos melhores atletas, no sentido em que estou a utilizar o termo. A musculatura desta equipa existe, ao contrário do que se pensa, embora seja de outra ordem.
É verdade que este Barcelona é tudo isto com que o caracterizam. Mas nenhuma dessas características tem necessariamente de ser um defeito. E esta é a grande lição de Guardiola. Numa altura em que, muitos pensam, se parece caminhar para um desporto cada vez mais musculado, no qual a força física e as capacidades atléticas são decisivas, este Barcelona vem deitar por terra essa ideia. O bom futebol, o melhor futebol, é aquele que é jogado com a cabeça, aquele que dá preferência aos atributos intelectuais. O futebol de hoje é um jogo de pouco espaço. Para muitos, tendo em conta essa evidência, os jogadores mais aptos serão, portanto, os mais rápidos, os tecnicamente mais evoluídos e os mais fortes. Se há coisa que este Barcelona vem provar é que isso, em rigor, não tem de ser assim. Os mais aptos são os mais inteligentes, os que decidem mais rapidamente, os que conseguem "fabricar espaços", os que possuem maiores índices de criatividade, etc.
É inegável que esta equipa joga um bom futebol, mas a sua grandeza não se esgota aí. Mais do que uma excelente ilustração de bom futebol, trata-se de uma verdadeira lição teórica sobre o jogo. Por trás desta equipa está um conceito que vem quebrar não só com muitos dos paradigmas actuais como também vem contradizer ideias e conceitos que, ao longo do tempo, foram elevados ao estatuto de dogma. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus laterais para nunca jogar no meio, pois é mais arriscado do que jogar em profundidade na linha, este Barcelona postula o contrário. Os laterais devem jogar no meio, porque é no meio que a possibilidade de criação de apoios é maior e porque é regressando ao meio que as possibilidades de escapar ao “pressing” do adversário aumentam. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus jogadores para não saírem a jogar caso o adversário pressione muito alto, pois é perigoso, este Barcelona não o admite, seja em que situação for. Um excelente exemplo desta “teimosia” foi a final da Taça do Rei. O Athletic de Bilbao optou, sobretudo depois de se encontrar a perder, por pressionar altíssimo, aquando dos pontapés de baliza do Barcelona. A ideia era fazer com que os defesas catalães não tivessem espaço para receber a bola e obrigá-los a jogar a contragosto, com saídas com pontapés longos. O Barcelona não fez caso disto e, ainda que a grande maioria dos treinadores desaconselhasse a sua equipa a sair a jogar nessas condições, saiu sempre a jogar. Com o auxílio dos laterais e do médio-defensivo, que baixou para servir de apoio, a equipa trocava assim a bola dentro da própria grande área, utilizando toda a largura do campo para criar linhas de passe, até que esta chegasse a uma das linhas. Nessa altura, um médio ou o extremo baixava para servir de apoio vertical e, recebendo a bola do lateral, entregava-a de imediato no médio-defensivo, ficando concluída a saída de bola. Alternadamente, dependendo da forma como o adversário pressionava, saíam também pelo meio, depois de conseguirem puxar os adversários para uma faixa e fazendo regressar a bola rapidamente aos centrais. O que é certo é que nunca desvirtuaram a sua maneira de jogar, mesmo correndo riscos tão elevados. Enquanto grande parte dos treinadores diz que não quer "rodriguinhos", que a equipa tem de ser objectiva, que um passe para trás só se faz em caso de aperto e que uma ideia de progressão deve estar sempre presente quando uma equipa troca a bola, este Barcelona vem dizer que isto não é bem assim e que nem sempre é para a frente que se joga, que a objectividade, quando excessiva, se transforma em previsibilidade. Este Barcelona, como joga, torna-se difícil de parar porque nunca se sabe por onde vai entrar, porque o seu futebol não se limita a fazer o mais simples, o mais objectivo, sendo, pelo contrário, complexo e imaginativo. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus jogadores que qualquer nesga para chutar à baliza deve ser aproveitada, este Barcelona refuta essa velha máxima e Guardiola já disse mesmo que prefere que os seus jogadores, mesmo dentro da grande área, troquem a bola em vez de chutar à baliza. A ideia é concluir o lance apenas quando as possibilidades de êxito são consideravelmente boas.
Por tudo isto, este Barcelona, mais do que uma equipa que pratica um futebol agradável, mais do que uma rara excepção de sucesso com armas diferentes, mais do que um exemplo de bom futebol, fundamenta-se na destruição de predicados ancestrais. Representa uma autêntica reformulação teórica do jogo. E é algo que, perdurando, pode contribuir para modificar a mentalidade que, nos dias que correm, domina o jogo.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
OPINIÃO
Mister, como é que se combate o «PRESSING»?!!
por Ricardo Barreto
Esta simples pergunta, que pode ser feita a qualquer altura por um qualquer jogador, é capaz provocar em nós diferentes opiniões. Mas, atenção!!! Antes de se procurar uma resposta, importa não esquecer que, a todo e qualquer momento, poderemos estar a dar tiros nos pés! Porquê? É isso que eu vou procurar esclarecer.
No futebol actual, existem determinados princípios de jogo que são considerados fundamentais para que uma qualquer equipa seja considerada de TOP. Atrevo-me até a ir mais longe! Actualmente, as equipas que não manifestem com regularidade determinados princípios, não podem ser consideradas EQUIPAS DE TOP! O «Pressing» é um deles!!! Senão, reparem! Façam uma pequena viagem por algumas das grandes equipas, do passado e do presente: Ajax de Rinus Michels, Cruyff ou Van Gall, Milão de Sacchi, Barcelona de Cruyff, Real Madrid da «Quinta del Bultre», Porto e Chelsea de Mourinho, Manchester United de Fergusson, ou qualquer uma das equipas que esteve nas meias finais da Liga dos Campeões deste ano, Chelsea, Barcelona, Arsenal e Manchester. Pensem agora no que estas equipas apresentaram ou apresentam como padrão de jogo e logo o «Pressing» aparece como um fio condutor que as une, do passado ao presente!
Mas será que isto pode ser visto de uma forma tão partida, tão analítica, tão redutora? Parece-me que não. É verdade que as grandes equipas são pressionantes (embora não o sejam sempre… nem sempre da mesma maneira!) e são agressivas (no bom sentido do termo e não apenas defensivamente!). Não são passivas, mas antes activas, pois não esperam pelo erro do adversário, procurando antes provocá-lo. Contudo, parece-me claro que para estas equipas, o «Pressing» é apenas metade do caminho. Porquê? Porque depois de «destruir» (o jogo do adversário) vem a parte mais difícil: «construir», «criar»!!!... E como elas (as EQUIPAS DE TOP) «construiram» no passado e «criam» no presente!!!... De facto, para todas estas equipas, o «Pressing» é visto apenas como um meio para atingir um fim – a POSSE DE BOLA – e não como um fim em si mesmo. Mais acrescento, é aqui, nesta capacidade de coordenar/articular estes dois momentos diversos, mas interligados, de jogo – recuperação da posse de bola e sua manutenção – que muitas equipas apresentam grandes dificuldades. E é precisamente esta articulação que distingue uma EQUIPA DE TOP da «normalidade». Mais, da vulgaridade!
No entanto, para uma vertente «iluminada» de treinadores, a única forma de se combater o «Pressing» é… com mais pressão!!! Então, pedem sistematicamente «garra», «suor», «esforço», «correria», «agressividade» (no mau sentido do termo) aos seus jogadores. E os jogos transformam-se em autênticas batalhas campais, onde o respeito pelo adversário e pela essência do jogo deixa de fazer sentido. Aparecem os jogos com excesso de faltas, as agressões e lesões aos «magotes», as bolas pelo ar, o futebol aos repelões, onde o músculo procura abafar o talento e onde as equipas se sentem mais à vontade sem bola do que com ela!
Para estes «carrascos» do BOM FUTEBOL, queria apenas deixar uma reflexão final. Quando compramos um bilhete para ir a um estádio ver um jogo de futebol, é como se pagássemos um bilhete para ir ao cinema! Temos direito ao filme completo… do princípio ao fim! Recusamo-nos a ver apenas uma parte do «filme», reproduzida e repetida vezes sem conta!
E já estou a imaginar a entrega dos «Óscares» 2008/2009:
“ÓSCAR PARA MELHOR FILME: BARCELONA
ÓSCAR PARA MELHOR REALIZADOR: PEP GUARDIOLA
ÓSCAR PARA MELHOR ARGUMENTO: MODELO DE JOGO DO BARCELONA
ETC…
ETC…”
E isto sim, dignifica o Futebol, dignifica os Treinadores, dignifica os Jogadores … e também bate recordes de bilheteira!
Por favor, levantem-se!!! APLAUSOS para o BOM FUTEBOL.
por Ricardo Barreto
Esta simples pergunta, que pode ser feita a qualquer altura por um qualquer jogador, é capaz provocar em nós diferentes opiniões. Mas, atenção!!! Antes de se procurar uma resposta, importa não esquecer que, a todo e qualquer momento, poderemos estar a dar tiros nos pés! Porquê? É isso que eu vou procurar esclarecer.
No futebol actual, existem determinados princípios de jogo que são considerados fundamentais para que uma qualquer equipa seja considerada de TOP. Atrevo-me até a ir mais longe! Actualmente, as equipas que não manifestem com regularidade determinados princípios, não podem ser consideradas EQUIPAS DE TOP! O «Pressing» é um deles!!! Senão, reparem! Façam uma pequena viagem por algumas das grandes equipas, do passado e do presente: Ajax de Rinus Michels, Cruyff ou Van Gall, Milão de Sacchi, Barcelona de Cruyff, Real Madrid da «Quinta del Bultre», Porto e Chelsea de Mourinho, Manchester United de Fergusson, ou qualquer uma das equipas que esteve nas meias finais da Liga dos Campeões deste ano, Chelsea, Barcelona, Arsenal e Manchester. Pensem agora no que estas equipas apresentaram ou apresentam como padrão de jogo e logo o «Pressing» aparece como um fio condutor que as une, do passado ao presente!
Mas será que isto pode ser visto de uma forma tão partida, tão analítica, tão redutora? Parece-me que não. É verdade que as grandes equipas são pressionantes (embora não o sejam sempre… nem sempre da mesma maneira!) e são agressivas (no bom sentido do termo e não apenas defensivamente!). Não são passivas, mas antes activas, pois não esperam pelo erro do adversário, procurando antes provocá-lo. Contudo, parece-me claro que para estas equipas, o «Pressing» é apenas metade do caminho. Porquê? Porque depois de «destruir» (o jogo do adversário) vem a parte mais difícil: «construir», «criar»!!!... E como elas (as EQUIPAS DE TOP) «construiram» no passado e «criam» no presente!!!... De facto, para todas estas equipas, o «Pressing» é visto apenas como um meio para atingir um fim – a POSSE DE BOLA – e não como um fim em si mesmo. Mais acrescento, é aqui, nesta capacidade de coordenar/articular estes dois momentos diversos, mas interligados, de jogo – recuperação da posse de bola e sua manutenção – que muitas equipas apresentam grandes dificuldades. E é precisamente esta articulação que distingue uma EQUIPA DE TOP da «normalidade». Mais, da vulgaridade!
No entanto, para uma vertente «iluminada» de treinadores, a única forma de se combater o «Pressing» é… com mais pressão!!! Então, pedem sistematicamente «garra», «suor», «esforço», «correria», «agressividade» (no mau sentido do termo) aos seus jogadores. E os jogos transformam-se em autênticas batalhas campais, onde o respeito pelo adversário e pela essência do jogo deixa de fazer sentido. Aparecem os jogos com excesso de faltas, as agressões e lesões aos «magotes», as bolas pelo ar, o futebol aos repelões, onde o músculo procura abafar o talento e onde as equipas se sentem mais à vontade sem bola do que com ela!
Para estes «carrascos» do BOM FUTEBOL, queria apenas deixar uma reflexão final. Quando compramos um bilhete para ir a um estádio ver um jogo de futebol, é como se pagássemos um bilhete para ir ao cinema! Temos direito ao filme completo… do princípio ao fim! Recusamo-nos a ver apenas uma parte do «filme», reproduzida e repetida vezes sem conta!
E já estou a imaginar a entrega dos «Óscares» 2008/2009:
“ÓSCAR PARA MELHOR FILME: BARCELONA
ÓSCAR PARA MELHOR REALIZADOR: PEP GUARDIOLA
ÓSCAR PARA MELHOR ARGUMENTO: MODELO DE JOGO DO BARCELONA
ETC…
ETC…”
E isto sim, dignifica o Futebol, dignifica os Treinadores, dignifica os Jogadores … e também bate recordes de bilheteira!
Por favor, levantem-se!!! APLAUSOS para o BOM FUTEBOL.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
OPINIÃO
Uma questão de lógica de jogo com comportamentos coerentes na sua globalidade
por José T.
Em resposta à solicitação do autor deste espaço, disponibilizei-me para discutir alguns pormenores de jogo relacionados com a crónica «Divórcio anunciado».
A questão do «pivô» e do «médio transportador de bola» é uma discussão interessante, fundamentalmente, ao nível dos conceitos, dos princípios e da lógica subjacente à equipa como um todo.
Parece-me demasiado fácil e sedutor usar conceitos que consideramos mais inteligentes ou evoluídos na tentativa de nos mostrarmos mais sabedores ou conhecedores sobre determinado assunto, mas devemos ter sempre o cuidado de perceber quais as suas origens e se tais conceitos são, ou não, adequados para o tema que estamos a discutir.
Para mim, o conceito de pivô está intimamente ligado a uma organização ofensiva em posse e circulação, com uma dinâmica interactiva de ocupação dos espaços com e sem bola. O que se pretende é que a equipa tenha zonas de passe perto e longe da bola, isto é, um jogo posicional sincronizado em que os jogadores funcionam uns em função dos outros, tentando encontrar o espaço e o momento adequados para fazer a bola penetrar ou finalizar com golo. Neste contexto, o pivô aparece como uma das figuras centrais, pois ocupa uma posição favorável, por excelência, para fazer a bola circular. Ele é um elemento organizador do jogo posicional, reaferindo espaços e equilíbrios, controlando timings de aceleração e temporização do jogo. A partir da sua zona, cria jogo pelo corredor central, o que permite à sua equipa jogar no interior do adversário. No fundo, numa lógica de controlo do jogo em posse de bola, num padrão por excelência de posse e circulação que procura os espaços do terreno de jogo favoráveis para criar os momentos óptimos para finalizar com golo, podemos e devemos usar o conceito de pivô para o jogador com a função acima descrita. Fora deste contexto, parece-me atrevido atribuir um conceito tão nobre, complexo e evoluído a um jogador!
Quanto à ideia de «médio transportador de bola», facilmente se interpreta que um médio, avançado ou defesa que seja «transportador de bola» está desadequado ou é mesmo contraditório a um padrão de jogo de posse e circulação. Num jogo circulado e apoiado, com jogadores perto e longe da bola, com ocupação racional do terreno de jogo e com a ambição de encontrar os melhores espaços para finalizar, torna-se desprovido de sentido algum jogador «transportar a bola». Porquê? Porque tal não é necessário!!! Porque é contrário ao padrão global existente.
No entanto, devemos ter o cuidado de perceber as diferenças entre «transportar a bola» e «penetrar com bola». A primeira situação implica deslocação de um objecto, enquanto a segunda implica a identificação de um espaço óptimo que deve ser ocupado. A primeira acontece várias vezes em jogos de transição onde os jogadores estão sozinhos ou desapoiados, com raras zonas de passe reais e onde existe uma vertigem pela aceleração – demasiadas vezes sem critério, porque se acredita que, quanto mais rápido o deslocamento, mais perto se está do golo. A segunda funciona como uma excepção. É uma estratégia de ocupação de espaços que tem subjacente um princípio e uma intenção e onde facilmente se observa uma sub-dinâmica de jogadores e comportamentos para se beneficiar de tal situação. No fundo, a primeira reflecte uma lógica individual, de quem transporta, enquanto a segunda reflecte uma lógica global, um padrão racional de circulação assente num jogo posicional de excepção!
José T.
por José T.
Em resposta à solicitação do autor deste espaço, disponibilizei-me para discutir alguns pormenores de jogo relacionados com a crónica «Divórcio anunciado».
A questão do «pivô» e do «médio transportador de bola» é uma discussão interessante, fundamentalmente, ao nível dos conceitos, dos princípios e da lógica subjacente à equipa como um todo.
Parece-me demasiado fácil e sedutor usar conceitos que consideramos mais inteligentes ou evoluídos na tentativa de nos mostrarmos mais sabedores ou conhecedores sobre determinado assunto, mas devemos ter sempre o cuidado de perceber quais as suas origens e se tais conceitos são, ou não, adequados para o tema que estamos a discutir.
Para mim, o conceito de pivô está intimamente ligado a uma organização ofensiva em posse e circulação, com uma dinâmica interactiva de ocupação dos espaços com e sem bola. O que se pretende é que a equipa tenha zonas de passe perto e longe da bola, isto é, um jogo posicional sincronizado em que os jogadores funcionam uns em função dos outros, tentando encontrar o espaço e o momento adequados para fazer a bola penetrar ou finalizar com golo. Neste contexto, o pivô aparece como uma das figuras centrais, pois ocupa uma posição favorável, por excelência, para fazer a bola circular. Ele é um elemento organizador do jogo posicional, reaferindo espaços e equilíbrios, controlando timings de aceleração e temporização do jogo. A partir da sua zona, cria jogo pelo corredor central, o que permite à sua equipa jogar no interior do adversário. No fundo, numa lógica de controlo do jogo em posse de bola, num padrão por excelência de posse e circulação que procura os espaços do terreno de jogo favoráveis para criar os momentos óptimos para finalizar com golo, podemos e devemos usar o conceito de pivô para o jogador com a função acima descrita. Fora deste contexto, parece-me atrevido atribuir um conceito tão nobre, complexo e evoluído a um jogador!
Quanto à ideia de «médio transportador de bola», facilmente se interpreta que um médio, avançado ou defesa que seja «transportador de bola» está desadequado ou é mesmo contraditório a um padrão de jogo de posse e circulação. Num jogo circulado e apoiado, com jogadores perto e longe da bola, com ocupação racional do terreno de jogo e com a ambição de encontrar os melhores espaços para finalizar, torna-se desprovido de sentido algum jogador «transportar a bola». Porquê? Porque tal não é necessário!!! Porque é contrário ao padrão global existente.
No entanto, devemos ter o cuidado de perceber as diferenças entre «transportar a bola» e «penetrar com bola». A primeira situação implica deslocação de um objecto, enquanto a segunda implica a identificação de um espaço óptimo que deve ser ocupado. A primeira acontece várias vezes em jogos de transição onde os jogadores estão sozinhos ou desapoiados, com raras zonas de passe reais e onde existe uma vertigem pela aceleração – demasiadas vezes sem critério, porque se acredita que, quanto mais rápido o deslocamento, mais perto se está do golo. A segunda funciona como uma excepção. É uma estratégia de ocupação de espaços que tem subjacente um princípio e uma intenção e onde facilmente se observa uma sub-dinâmica de jogadores e comportamentos para se beneficiar de tal situação. No fundo, a primeira reflecte uma lógica individual, de quem transporta, enquanto a segunda reflecte uma lógica global, um padrão racional de circulação assente num jogo posicional de excepção!
José T.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
OPINIÃO
“Jogar para os pontos”?!!
por Carlos Campos
A finalidade das equipas de futebol terem um treinador parece-me estar relacionada com a necessidade de este lhes transmitir uma identidade própria, um determinado tipo de inter-relacionamentos entre os jogadores que lhes permitam jogarem o mesmo jogo, o mesmo futebol. Há a necessidade de os jogadores se sincronizarem na mesma ideia para que, em cada momento do jogo, se movam no mesmo registo e funcionem como um todo que partilhe os mesmos princípios de acção. Só desta forma poderemos falar em Equipa na verdadeira acepção da palavra, num colectivo que, jogando de determinada forma, tenta em cada jogo superiorizar-se ao adversário procurando marcar mais golos do que aqueles que sofre.
Esta identidade, esta determinada forma de jogar futebol cuja construção é da responsabilidade do treinador, é conseguida através das diferentes solicitações que este lhes propõe ao longo do processo de treino, ou seja, é neste processo que os jogadores vão adquirindo os princípios de acção que consubstanciam o jogo da equipa.
A riqueza da ideia de jogo que o treinador tem é de vital importância, pois boas ideias são fundamentais para bons futebóis. Contudo, mesmo uma ideia mais pobre, ou menos complexa, poderá sobreviver se for operacionalizada com qualidade, isto é, se essa forma de jogar for a prioridade a desenvolver, se tiver os seus princípios bem estruturados e hierarquizados, se tiver em conta uma alternância horizontal dos conteúdos de treino que lhes permita uma assimilação gradual e saudável daquilo que o treinador pretende e se este dominar tudo isto e, com uma intervenção perspicaz, for ajustando todas estas variáveis tendo em vista a tal ideia…
Esta introdução lapalissiana (sê-lo-á para a maioria… espero) esbarra estrondosa, diria mesmo catastroficamente, nos treinadores que, perto do fim das respectivas ligas, assumem heroicamente: «A partir de agora vamos jogar para os pontos!». Ora, surge aqui um ponto de ruptura marcadamente ilógico, sem sentido nem coerência, que ataca de forma aniquiladora e voraz aqueles que, como eu, acreditam nas tais verdades de la Palisse que referi anteriormente. Será que os treinadores que dizem isto não jogavam para ganhar até então???
O que se verifica habitualmente após este tipo de mudança de atitude são equipas a alterarem subitamente a sua forma de jogar procurando, sempre que têm a bola, colocá-la directamente na área adversária na crença de duas coisas: 1) «Bola perto da baliza adversária aumenta a probabilidade de golo nosso»; 2) «Bola longe da nossa baliza reduz a possibilidade de sofrermos golo».
Admitindo isto como meias verdades, emanam daqui um conjunto de questões que me causam uma enorme intriga que é a raiz deste texto. Se um treinador acredita que esta é a melhor forma de conquistar pontos, por que não jogou assim desde o inicio, procurando inclusivamente treinar isso (a tal ideia pobre…)? Treinador que mude o seu jogo de uma semana para a outra saberá o que é treinar para um «jogar»? Treinador que diga «A partir de agora vamos jogar para os pontos» alguma vez terá tido como preocupação desenvolver na sua equipa uma identidade? Achará isso importante?
Creio que um treinador que diz isto não é treinador, porque não cumpre nenhum dos requisitos sine qua non daquilo que, para mim, é SER TREINADOR. Treinador que o seja e não esteja a vencer, identifica e reajusta aquilo que está mal, mas joga sempre para os pontos, pois acredita que a sua ideia de jogo (sim, porque um treinador que o seja de facto tem uma ideia de jogo que procura desenvolver) é a melhor forma de ganhar os jogos.
Percebo perfeitamente o que é a necessidade imperiosa de pontos, níveis de confiança baixos por sucessivos insucessos, adeptos descontentes, Direcção a pressionar, etc., mas a melhor forma de conquistar pontos é a jogar bom futebol, proveniente de uma boa ideia bem treinada, sendo isto apenas passível de ser desenvolvido por bons treinadores!
Carlos Campos
por Carlos Campos
A finalidade das equipas de futebol terem um treinador parece-me estar relacionada com a necessidade de este lhes transmitir uma identidade própria, um determinado tipo de inter-relacionamentos entre os jogadores que lhes permitam jogarem o mesmo jogo, o mesmo futebol. Há a necessidade de os jogadores se sincronizarem na mesma ideia para que, em cada momento do jogo, se movam no mesmo registo e funcionem como um todo que partilhe os mesmos princípios de acção. Só desta forma poderemos falar em Equipa na verdadeira acepção da palavra, num colectivo que, jogando de determinada forma, tenta em cada jogo superiorizar-se ao adversário procurando marcar mais golos do que aqueles que sofre.
Esta identidade, esta determinada forma de jogar futebol cuja construção é da responsabilidade do treinador, é conseguida através das diferentes solicitações que este lhes propõe ao longo do processo de treino, ou seja, é neste processo que os jogadores vão adquirindo os princípios de acção que consubstanciam o jogo da equipa.
A riqueza da ideia de jogo que o treinador tem é de vital importância, pois boas ideias são fundamentais para bons futebóis. Contudo, mesmo uma ideia mais pobre, ou menos complexa, poderá sobreviver se for operacionalizada com qualidade, isto é, se essa forma de jogar for a prioridade a desenvolver, se tiver os seus princípios bem estruturados e hierarquizados, se tiver em conta uma alternância horizontal dos conteúdos de treino que lhes permita uma assimilação gradual e saudável daquilo que o treinador pretende e se este dominar tudo isto e, com uma intervenção perspicaz, for ajustando todas estas variáveis tendo em vista a tal ideia…
Esta introdução lapalissiana (sê-lo-á para a maioria… espero) esbarra estrondosa, diria mesmo catastroficamente, nos treinadores que, perto do fim das respectivas ligas, assumem heroicamente: «A partir de agora vamos jogar para os pontos!». Ora, surge aqui um ponto de ruptura marcadamente ilógico, sem sentido nem coerência, que ataca de forma aniquiladora e voraz aqueles que, como eu, acreditam nas tais verdades de la Palisse que referi anteriormente. Será que os treinadores que dizem isto não jogavam para ganhar até então???
O que se verifica habitualmente após este tipo de mudança de atitude são equipas a alterarem subitamente a sua forma de jogar procurando, sempre que têm a bola, colocá-la directamente na área adversária na crença de duas coisas: 1) «Bola perto da baliza adversária aumenta a probabilidade de golo nosso»; 2) «Bola longe da nossa baliza reduz a possibilidade de sofrermos golo».
Admitindo isto como meias verdades, emanam daqui um conjunto de questões que me causam uma enorme intriga que é a raiz deste texto. Se um treinador acredita que esta é a melhor forma de conquistar pontos, por que não jogou assim desde o inicio, procurando inclusivamente treinar isso (a tal ideia pobre…)? Treinador que mude o seu jogo de uma semana para a outra saberá o que é treinar para um «jogar»? Treinador que diga «A partir de agora vamos jogar para os pontos» alguma vez terá tido como preocupação desenvolver na sua equipa uma identidade? Achará isso importante?
Creio que um treinador que diz isto não é treinador, porque não cumpre nenhum dos requisitos sine qua non daquilo que, para mim, é SER TREINADOR. Treinador que o seja e não esteja a vencer, identifica e reajusta aquilo que está mal, mas joga sempre para os pontos, pois acredita que a sua ideia de jogo (sim, porque um treinador que o seja de facto tem uma ideia de jogo que procura desenvolver) é a melhor forma de ganhar os jogos.
Percebo perfeitamente o que é a necessidade imperiosa de pontos, níveis de confiança baixos por sucessivos insucessos, adeptos descontentes, Direcção a pressionar, etc., mas a melhor forma de conquistar pontos é a jogar bom futebol, proveniente de uma boa ideia bem treinada, sendo isto apenas passível de ser desenvolvido por bons treinadores!
Carlos Campos
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